Black Mirror – 4ª Temporada

Black Mirror – 4ª Temporada

Na última temporada de Game of Thrones, o público ficou com um gosto agridoce pela necessidade por parte dos roteiristas de adiantar as histórias e preparar o desfecho final, deixando de lado os alicerces políticos que reinaram nos anos anteriores. Um estranhamento similar também é visto na quarta temporada de Black Mirror, série do canal inglês Channel 4 que despontou no mundo muito graças à distribuição pela Netflix no último ano, e com a entrada da criação de Charlie Brooker no hall fixo da empresa de streaming, alguns alicerces foram mudando de tom.

A série ainda faz comentários tenazes sobre as relações humanas, com a tecnologia entre os dois polos, mas o tom depressivo vem aos poucos deixando de ser a métrica para trabalhar de formas mais leves (se é que pode rolar leveza em Black Mirror) e diversas. Não há de se negar que esse é um ponto polêmico, mas com boas repercussões: é só analisarmos as reações à San Junipero (S03EP04), um dos episódios mais aclamados da última temporada.

Em uma temporada totalmente composta por protagonistas femininas (algumas só descobertas durante ou no final dos episódios), Black Mirror avança nas experimentações, mantém seu ar globalizado, com personagens multiculturais (bem propício de produções inglesas e já marca da série) mas, uma vez com seus símbolos mitológicos já definidos, peca em replicá-los, o que soa como um ano menos criativo que os demais. Tanto que White Christmas (o episódio de Natal da 2ª temporada) promove ecos por quase todos os episódios; aliás, uma ou outra vez teremos ecos de episódios anteriores não só na tecnologia, mas por temática (Engenharia Reversa não casa com Metalhead e ambos são o ‘episódio cinco’ das suas respectivas temporadas?).

 

USS Callister

Confesso que foi corajoso jogar USS Callister como primeiro episódio, uma vez que seus primeiros minutos destoam completamente da visão fria permeada pela série. O episódio debutante figura como o clássico de Natal (o lançamento foi logo após a data) e questiona sobre relações abusivas no trabalho, machismo e comportamento nerd opressor que tanto fulgura em Chans internet afora, e como elemento narrativo temos uma paródia de Star Trek para ilustrar o comportamento de Robert Daly (Jesse Plemons da série Fargo), sócio de uma empresa de games sem traquejo social que transforma-se em “herói” durante suas imersões ao jogo num servidor dedicado. Assim como em Manda quem Pode, o sujeito tímido “do bem” é desconstruído para apresentar o novo bully em contraste aos velhos jogadores de torcida universitários que alçavam sucesso.

Brooker consegue manter a narrativa dentro dos parâmetros que tornaram a franquia espacial conhecida, como “matar” o/a tripulante vestido de vermelho e as atuações caricaturais da década de 60; mas mesmo assim, durante o episódio de mais de uma hora a evolução de Star Trek clássica para a Discovery (também na Netflix) introjeta as mudanças da sociedade: sai o Robert Dale como um capitão Kirk, e entra Nanette Cole (Cristin Milioti, também da série Fargo) como uma representação de Michael Burnham (a líder representada por Sonequa Martin-Green na série). Ademais, também rolam as brincadeiras visuais como o uso dos flares que hoje são quase assinaturas de J.J. Abrams, um dos responsáveis por ressuscitar a série em 2009 através do filme.

A discussão mais pungente é a que fora a novata na Callister, temos uma visão de quão tóxico é o ambiente da empresa: aí começam os tons de cinza tão francos de Black Mirror. Ninguém é inocente. Mas qual seria o “maior mal”? Diferente de Manda quem Pode, é visto que Dale apresenta-se como um produto do meio, e desconta nas cópias de consciência cuja tecnologia já nos fora apresentada em White Christmas (e lá vem o eco). Daí, surge outra indagação: isso é ético? São pessoas? São esses questionamentos que fazem o episódio crescer e que a série discute e responde em pontos escondidos, mesmo que a obtenção de consciência através de DNA necessite de uma baita suspensão de descrença.

 

Arkangel

Incensado pela direção de Jodie Foster, Arkangel volta visualmente ao mundo de Black Mirror e com uma relação ainda não vista nos episódios, a materna. Utilizando-se de referências bíblicas, inicialmente com o nome da mãe aludindo à Maria (Rosemarie DeWitt, de La La Land), o episódio trabalha nos limites da superproteção e até onde vai o controle na vida dos filhos, tema que mexe muito com este que vos escreve. Porém, ele também tange a responsabilidade de ser mãe, as agruras de navegar um oceano de dúvidas onde cada ato não tem gabarito no final do dia para comprovar se a decisão na vida dos filhos foi a certa ou errada, e as consequências. No caso, praticamente uma supressão do comportamento em frente a dois elementos inerentes ao ser humano: a violência e a sexualidade, ou seja, viver numa bolha.

O roteiro já apresenta Marie com certos problemas de proteção desde o nascimento da filha Sara (que no hebraico significa ‘princesa’ e reforça a preciosidade com que é tratada) e que a direção de Foster com planos mais fechados no rosto da mãe, aliada a uma trilha densa conferem ansiedade. A ausência de uma figura paterna no episódio reforça ainda mais a verve bíblica.

O amarelo – em tons mais pastéis – permeia em vários momentos para simbolizar o temor de Marie pela segurança de Sarah (Brenna Harding). No segundo ato há uma diminuição da cor, momento da vida em que a mãe parece ter mais confiança sobre si, porém um deslize faz com que o mensageiro volte à tona (principal função dos arcanjos, e que dá nome à tecnologia de vigilância). Um paralelo interessante é o da mãe sempre enxergar Sarah durante a adolescência nos momentos inoportunos, similares aos momentos de abrir a porta do quarto sem permissão e encontrar o/a filho/a em situações constrangedoras.

Mas chegamos ao final que comprova a falta do gabarito no fim do dia e que a supressão causada pelo aplicativo – e que nos foi apresentada em Toda sua História (S01Ep03) resulta no que Marie sempre evitou e Sara torna-se a protagonista do vídeo que Trick (Nicky Torchia) na mocidade descreveu.

 

Crocodilo

A expressão “lágrimas de crocodilo” vem do fato do réptil chorar enquanto devora uma vítima, mas obviamente não por arrependimento, mas pelas suas glândulas lacrimais serem ativadas durante a mastigação. Um dos episódios mais fracos da série, Crocodilo apresenta a escalada de mortes concebida por Mia Nolan (Andrea Riseborough de A Batalha dos Sexos) afim de manter sua vida.

Shazia: descanse em paz.

Em paralelo temos a investigadora de seguros Shazia (Kiran Sonia Sawar) que ao investigar um acidente vai cavando sua cova, premeditada pelo adereço roxo – cor que comumente simboliza morte – que usa durante suas entrevistas com um aparelho que parece uma versão mais antiquada da usada em Toda a sua História. No momento em que Shazia encontra-se com Mia, o destino da investigadora já está acertado através da câmera posicionada fora da casa e que coloca a visitante comprimida.

O grande percalço do episódio é a forma que a narrativa é contada, sem abertura para a famosa frase-meme “isso é muito Black Mirror, meu”. É uma história linear, sem reviravoltas, onde a tecnologia sai da sua funcionalidade como meio para ser pano de fundo, tal qual Metalhead, igualmente um dos episódios mais odiados da temporada.

 

Hang the DJ

Ah, chegamos ao San Junipero da temporada: rimando com o adorado episódio quando à sua posição (também quarto), Hang de DJ popularmente conhecido como trecho da música Panic! do grupo inglês The Smiths e refere-se a um pedido de mudança de quando é tocada alguma música ruim, tal qual os relacionamentos ruins de Amy (Georgina Campbell, de Rei Arthur: A Lenda da Espada) e Frank (Joe Cole, de Sala Verde) durante a estadia das suas consciências virtuais no “app-resort” de paquera.

Esse é um dos episódios que o conhecimento prévio da mitologia – cof, cof! White Christmas! – o deixam mais interessante, principalmente para capturar mais elementos do terceiro ato. Outra surpresa é que não sabemos quem é o protagonista até o encontro final, onde a dica está principalmente no estofado do restaurante onde os encontros são realizados: toda vez que Amy e Frank se encontram, a cor do sofá é vermelho, representando o amor dos dois; até a decisão tomada por Amy de fugir e tornar o amor dos dois possível e, não à toa, ela traja vermelho. Outro ponto que corrobora com a escolha de protagonistas femininas é a liberdade sexual dada a Amy.

E mais uma vez é um episódio que foge da bad vibe dos anteriores.

 

Metalhead

Sempre que a Boston Dynamics mostra um vídeo dos seus robôs como o Cheetah, pululam comentários que a Skynet dominará o mundo – mesmo que deva ter ocorrido em 29 de agosto de 1997, segundo o filme Exterminador do Futuro 2 (1991).

Adornado por uma bela fotografia em preto e branco, Metalhead também é um episódio trajado com a desesperança já comum do programa, com reviravolta e tudo o mais. A escolha da fotografia mais dura também auxilia na cobertura das cenas mais gore do episódio, onde cabeças são estouradas por algumas vezes. Bella (Maxine Peake, de A Teoria de Tudo) conduz a história como a sobrevivente da malfadada missão.

Metalhead tenta subverter algo que é visto em grande parte da série: que a tecnologia ressalta o pior das pessoas nas relações. Aqui vemos que num futuro distópico o ser humano se arrisca afim de realizar algo bom. Durante a fuga da protagonista, temos a visão aérea do drone, cuja visão com ares de estratégia já determina o fim da humanidade naquele capítulo. A luta humano x máquina é o principal ponto onde o final, mesmo piegas, mostra-se necessário ao incidir no espectador que ainda há (ou existia) esperança nos atos da mesma humanidade que criou os robôs.

 

Black Museum

Similar ao episódio … White Christmas (pois é), Black Museum aproveita seu tempo de pouco mais de uma hora para apresentar outras histórias dentro do trama principal, mas com uma estrutura menos inventiva que o citado. Sai o charmoso personagem de Jon Hamm e entra Douglas Hodge como o arrogante dono do museu de horrores Rolo Haynes. O episódio é uma ode a toda mitologia, com elementos presentes de todas as temporadas, como um presente para os fãs da série que perscrutarão cada cena à procura de cada elemento: e a satisfação ao perceber que item X pertence ao episódio Y não nos faria “visitantes” daquele macabro lugar?

Tratando-se de uma auto-homenagem, Black Museum é mais um episódio criado propositadamente no padrão da série, logo não tem muito para onde fugir, mas as três histórias ressaltam temas caros como consumo hedonista do macabro e racismo. A direção de arte dá pistas sobre a rivalidade entre Haynes e Nish (Letitia Wright, da série Humans), principalmente nas histórias internas, onde Rolo ou está utilizando sua gravata vermelha, ou utiliza um elemento da cor – lembrem da maçã – para influenciar as “cobaias”. Em contraponto, Nish apresenta seu carro azul, destoando do vermelho estacionado do proprietário do museu.

Com uma temporada propositadamente irregular, Black Mirror segue ousado em testar novos nuances, universos e relações; porém peca em novas correlações da tecnologia, aplicando os mesmos elementos em narrativas não tão diferentes; ainda sim desponta como uma boa série, digna de atenção.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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