13 Reasons Why – 2ª Temporada

13 Reasons Why – 2ª Temporada

[SPOILERS]

Nessa temporada, duas séries têm o grande desafio de evoluírem suas obras de nascença: uma delas é o sucesso de público do serviço de streaming Hulu The Handmaid’s Taleveja crítica da primeira temporada aqui – que agora parte de um universo além do livro da sua criadora Margareth Atwood. E pouco menos de um mês atrás estreou na Netflix a segunda temporada de 13 Reasons Why, série baseada no best-seller de Jay Asher. Embora polêmica ao tratar o tema do suicídio de uma maneira meio torta para alguns, suscitou a roda de debate e estimulou a Netflix a tomar mais cuidado com as produções pelas quais é responsável, com especiais da série sobre o assunto, um site para pessoas que passam por situações similares a da personagem Hannah Baker (Katherine Langford), no qual a prematura morte foi a mola propulsora dos incidentes na Liberty School.

Aqui, cinco meses após os incidentes da primeira temporada, está aberto o julgamento: a escola conivente versus a mãe (Kate Walsh) que não souber ler os sinais; essa é a estrutura central dos 13 episódios que trazem boa parte dos “responsáveis” presentes nas fitas da temporada anterior para depor e acrescenta elementos novos na mistura.

O modo trágico que poderia terminar seria catártico, igualmente polêmico e, talvez, ideal

Porém, mesmo que aqui tenha como foco assuntos igualmente tensos como estupro e bullying, a série acerta em evidenciar o elemento essencial para as violências acontecerem: a existência de um ecossistema propício para isso; salientando que todos esses traumas encontram na adolescência todo o combustível para funcionar: as relações de opressão, desesperança e medo, embalados pelo imediatismo natural da juventude, onde os atos tornam-se muito mais emotivos e drásticos.

Esse mesmo ecossistema é visto no abafamento de casos de estupro por parte de instituições educacionais, como visto no excelente documentário indicado ao Oscar The Hunting Ground (2015, também na Netflix) e no filme da HBO baseado nos casos de abuso sexual de um treinador, Paterno (2018). Nesse ponto a série tem pontos a acumular. Aqui ele joga luz no percurso de Tyler (Devin Druid) cuja vida vai degringolando e seus momentos “finais” começam a ser construídos por foreshadowings (“dicas” colocadas pelo roteirista no início do filme/série para remontar o que vem no futuro): o melhor exemplo é a armadilha da bomba de tinta em Marcus Cole (Steven Silver) apresentada no episódio 4 (A Segunda Polaroid), onde ele e Cyrus (Bryce Cass) entram no colégio tal qual os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold, realizadores do atentado em Columbine, o tiroteiro escolar mais icônico na entrada do ano 2000.

Os pontos vão embora no micro, quando analisamos Clay (Dylan Minnette) e os demais adolescentes: a começar pelo protagonista aqui que tem Hannah ao lado como uma espécie de Deus Ex Machina, imputando-o informações desconhecidas no decorrer da temporada anterior; no mais, Clay a todo momento se comporta de forma errática ao conversar com o “espírito” (?) da sua amante, tornando o lembranças em algo bem mais sólido e justificando uma possível paranóia do personagem – sugestionada na 1ª temporada em que o protagonista tomava remédios, lembra? E nessa temporada, o mesmo torna-se detetive e impede um massacre, o que é totalmente descabido.

Voltando a Hannah, do mesmo modo que a série a retira o altar criado por Clay, nos fazendo enxergar a humanidade da garota, a produção desperdiça os flashbacks com um roteiro preguiçoso. O instrumento poderia ser utilizado para causar dubiedade e deixar a trama muito mais interessante, e a única vez onde o recurso foi usado dessa forma foi no episódio 11 (Bryce e Chlöe) em que o testemunho de Bryce sobre a presença de Hannah no Clubhouse não bate com a cena anteriormente apresentada por um detalhe sobre o cachimbo de maconha. Tal recurso poderia permear por toda a série, afinal a única que poderia confirmar a veracidade daquilo está mort..ops! Não! Ela está buzinando A VERDADE no ouvido de Clay A TODO TEMPO.

Explico: seguimos uma linha do julgamento onde a espinha dorsal estão nas testemunhas; ao lado cresce a linha do Clubhouse, o covil onde Bryce (Justin Prentice) sumariamente estuprava alunas e tinha polaroids como troféus e vendida para o espectador como itens importantíssimos da narrativa, tanto que os cartazes – e créditos de abertura – são focados nelas; e o resultado não leva a lugar nenhum.

A temporada dá abertura para alguns personagens serem melhor desenvolvidos; e aqui destaco Alisha Boe e Christian Navarro, que fazem os papéis de Jessica e Tony, respectivamente. Os demais sofrem de um grande cacoete do jovem aborrecido, em consonância com os tons azulados e sombrios da série, mas os arroubos de raiva só ajudam a torná-los mais aborrecidos e desinteressantes (recentemente visto no protagonista da finada série Everything Sucks!). Na direção de arte, mantém-se a dualidade, utilizando cores quentes para os flashbacks, padrão criado na primeira temporada. Idem para a trilha, ainda recorrendo a clássicos mais sombrios dos anos 70/80 como Siouxsie and the Banshees e Buzzcocks.

13 Reasons Why termina um ciclo nessa temporada de forma descuidada, usando seus temas como muleta. O modo trágico que poderia terminar seria catártico, igualmente polêmico e, talvez, ideal para mostrar uma consequência dos repetidos erros cometidos com os jovens em uma instituição que deveria além de educá-los, protegê-los. É só verificar semanalmente os incidentes com armas de fogo nas escolas americanas para perceber a realidade bem próxima da ficção.

Edgar Santos
Escrito por Edgar Santos

Editor do site Cinemáticos, diretor de arte, leitor de HQs e fã de Blaxploitation.

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